As promoções, as cores, os desenhos: quais desejos sentimos quando ganhamos ou comemos algo que vimos na TV ou na internet?
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Texto para reflexão
24/04/2012
POR ROSELY SAYÃO
Qual educação alimentar temos praticado? A educação das refeições rápidas compradas prontas
Eu estava fazendo compras em um supermercado quando uma consumidora chamou minha atenção. Era uma jovem mulher acompanhada de sua filha de mais ou menos cinco anos.
O que despertou meu interesse foi o fato de a mãe dialogar com a filha o tempo todo. Falavam sobre as compras, a filha fazia perguntas e a mãe respondia de bom grado e com uma linguagem bem adequada para a criança. Todas as respostas fornecidas pela mãe continham informações corretas, mas eram adaptadas ao universo da criança dessa idade.
Não é mais tão comum assim vermos pais e filhos conversarem quando fazem um passeio juntos ou compras, como era o caso.
Quase toda a comunicação que vejo nessas situações se restringe a ordens, proibições, reclamações e pedidos.
A partir daquele momento eu me esqueci da tarefa que precisava realizar e passei a acompanhar tanto as compras quanto os diálogos travados entre mãe e filha.
Com toda a atenção voltada para as duas, notei que a cada alimento comprado a mãe repetia a mesma frase: "Esse vamos levar porque é saudável".
Como a garota não perguntou o significado dessa palavra, presumi que "saudável" já fazia parte de seu cotidiano.
Meu passeio estava delicioso, mas chegou um momento em que ele se transformou em uma maravilha. Foi quando a garota pediu à mãe que ela comprasse um pacote de biscoitos -o que foi de pronto negado.
Sem expressar nenhuma reação mais forte perante uma vontade sua que não seria satisfeita, a menina perguntou: "Esse nós não vamos comprar porque ele é doente?".
Pronto: depois de ouvir isso eu já podia seguir com minhas compras, e fiz isso. Mas é claro que a cena que eu testemunhara me faria pensar.
Lembrei-me logo de uma notícia que lera no mesmo dia segundo a qual quase metade da população brasileira apresenta excesso de peso. Essa notícia, fruto de uma pesquisa realizada no país todo, teve grande repercussão e muitos especialistas -médicos e nutricionistas, em especial- foram convocados a opinar e a orientar a população a respeito da boa alimentação, ou melhor, da alimentação saudável.
Dias depois, recebi a mensagem de uma leitora que, preocupada com a obesidade infantil, me perguntava se não seria interessante que as escolas adotassem em sua prática uma disciplina chamada educação alimentar.
Qual educação alimentar temos praticado com as crianças e os jovens? A educação do chamado "fast food", ou seja, refeições rápidas, compradas prontas ou ingeridas em lanchonetes, por exemplo. Observar as lancheiras das crianças nas escolas nos permite essa constatação: algumas levam lanches caseiros, mas uma grande parte leva merendas industrializadas. Ou "doentes", como diria a garota de cinco anos que encontrei no supermercado.
Creio que todos que têm filhos devem se lembrar de uma refeição simples, mas muito gostosa, feita por mãe, avó, tia, pai ou todos juntos. Não era preciso ter preocupação se o alimento era ou não saudável: o fato de a refeição ter sido feita em casa, com afeto, já era um sinal de que só poderia fazer bem. Fazia. E, além de tudo, era muito gostosa.
Mas parece que o estilo de vida que adotamos não mais comporta mãe fazendo comida para os filhos, lanche para levar à escola, bolo para a festa de aniversário etc. Se há quem faça, por que deveríamos fazer?
O resultado disso é que quem responde pela tal da educação alimentar dos mais novos é o mercado do consumo. O excesso de peso, inclusive de crianças, é fruto desse fato.
Poderíamos fazer uma campanha pela alimentação gostosa, em todos os sentidos. Lancheiras amorosas, por favor! As crianças agradecem.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)
Folha de S. Paulo, Equilíbrio, 24/4/2012
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/38864-lancheiras-amorosas-por-favor.shtml
Outro lado da moeda
Você concorda?
A editora jurídica Rosana Simone Silva conta que cresceu assistindo a publicidade e não vê como as crianças podem crescer longe de tudo isso. Segundo ela, não existe nenhum problema em assistir propaganda, mas ressalta que essa publicidade precisa ser feita com muito cuidado, respeitando os limites imposto pela lei e pela regulamentação. Ela lembra que a criança se torna consumista não pela publicidade, mas porque nossa sociedade é assim.
Fonte: http://www.somostodosresponsaveis.com.br
Sobre legislação e propaganda infantil
Estava bisbilhotando este mar de coisas que é a internet e vi um blog - Registrando Cidadania - que fala sobre os limites impostos para a publicidade infantil. Afinal, ninguém nasce com desejos de comprar. É uma construção. O texto também menciona a Lei 5921/01 determinando regulamentando e proibindo certas propagandas para o público infanto-juvenil. Para melhor entender do que se trata, vai o link do blog http://registrandocidadania.blogspot.com.br/2010/06/crianca-tem-direito-consumir.html para discussão.
Contudo, vamos aprofundar a discussão: a lei barra EFETIVAMENTE os comerciais? E a internet, espaço virtual que ganha cada dia mais a preferência das crianças e adolescentes, pois a dinâmica e as cores e as imagens e os áudios são intensos e chamativos, há algum controle do poder público e dos pais para evitar a disseminação da propaganda? Ou estamos amamentando nossos filhos com valores de uma sociedade consumista para acalmá-los?
Eu, etiqueta e coisa
A arte imita a vida ou a vida imita a arte?
Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas da literatura nacional, escreveu sobre as marcas que nos constroem em coisas.
Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.
Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas da literatura nacional, escreveu sobre as marcas que nos constroem em coisas.
EU ETIQUETA
Carlos Drummond de AndradeEm minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.
Os bons são maioria... Compre Coca-cola!
Os bons são maioria. Se tem uma coisa que as propagandas estimulam é a necessidade de sermos a maioria. Unicamente iguais a todos. O comercial acima da Coca-cola defende que, se somos maioria, somos bons. Compre Coca-cola!
PS: Não é por que estamos criticando os efeitos da propaganda e do consumo que não achamos este comercial um ótimo comercial.
Pequenas crianças, grandes negócios
Como negar um pedido para seu filho ou sua filha? Seja para agradar ou para sossegar a insistência dos pequenos, comprar um produto é comprar uma ideia, um valor social. Até que ponto a vontade é individual? Até que ponto é um prazer construído?
Assinar:
Comentários (Atom)



